FILOSOFANDO O COTIDIANO

O autor define com mestria o significado da FILOSOFIA ESPÍRITA vigente no atual estágio evolutivo em que nos encontramos.
Acompanhe conosco esse processo de encontros e desafios, que definem o Ser em busca de si mesmo através de ações que convergem a favor da paz e da Harmonia.

Educar para o pensar espírita é educar o ser para dimensões conscienciais superiores. Esta educação para o Espírito implica em atualizar as próprias potencialidades, desenvolvendo e ampliando o seu horizonte intelecto-moral em contínua ligação com os Espíritos Superiores que conduzem os destinos humanos.(STS)

Base Estrutural do ©PROJETO ESTUDOS FILOSÓFICOS ESPÍRITAS (EFE, 2001): Consulte o rodapé deste Blog.

14 de fevereiro de 2010

EM LOUVOR À AMIZADE

Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos - vós sois meus amigos, se praticais o que ensino, porque tudo o que ouvi do Pai eu vos dei a conhecer. Este é o meu preceito: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. (João,15:12-15)

Hoje, muito mais que importante, é imprescindível refletirmos nas palavras de Jesus, quando destaca e exalta o sentimento fraterno, elevando-o à categoria da Amizade, como o mais alto galardão daquele que doa o melhor de si àquele a quem chama de irmão - ou irmã. O Mestre viveu com tanto empenho este sentimento, que, ao despedir-se da humanidade tratou-nos como crianças rebeldes ainda em crescimento, como um irmão mais velho faria, sem reprimendas, apenas revelando-nos a Paternidade comum, dando-nos por Mãe aquela que o materializara entre nós, num respeito profundo à nossa natureza, ainda dependente dos símbolos e dos arquétipos individuais e coletivos. Ele iria, mas deixaria conosco a sua imensa afeição. Pelos homens e pelas mulheres, fez tudo o que era possível em renúncia e dedicação. Diz Emmanuel : “seus atos foram celebrados em assembléias de confraternização e de amor. A primeira manifestação de seu apostolado verificou-se na festa jubilosa de um lar”. Aceitava os publicanos, os avaros, as mulheres e os homens equivocados. “Era amigo fiel dos necessitados que se socorriam de suas virtudes. Através de seus ensinos, notava-se-lhe o esforço para ser entendido em sua infinita capacidade de amar. A última ceia representa uma paisagem de afetividade integral. Lava os pés aos discípulos, ora pela felicidade de cada um”.

E como se não bastasse, despede-se de seus apóstolos, a quem chamara de Amigos, recomendando-lhes que se amassem uns aos outros, como Ele os amara. Enfatiza a união, o respeito que deve prevalecer entre aqueles que verdadeiramente seguem suas lições. Convida a que caminhem o Seu Caminho, amem a Verdade, e aprendam com a Sua Vida.

Tão importante é a Amizade, que o significado essencial da expressão filósofo é Amigo do Saber. Donde poderíamos refletir que o reto pensar, o filosofar na essência, como queria Sócrates, conduz ao pleno exercício desse sentimento. Sócrates refere-se ainda à Justiça, e alguns anos mais tarde, Aristóteles harmonizaria essa idéia, atribuindo à verdadeira amizade o fato dela ser exercida com justiça e bondade. Não há por isso qualquer contradição em ver na amizade um comportamento eminentemente dirigido para o outro, um momento essencial da vida feliz, que implica reconhecimento, colocando os parceiros da amizade como dignos de si mesmos, no esforço supremo de contemplar o divino que está em nós e fora de nós.

Nos jogos olímpicos de Barcelona, ela foi o tema principal (Amigos para Sempre) que nortearia os passos daqueles que estariam em busca de medalhas, como a lembrá-los que o importante no esporte, como na existência, não é a disputa, que pode levar à distorção da idéia de competir, conduzindo-os ao jogo perigoso do doping, mas à convivência e à auto-superação, ou seja, dar o melhor em prol de si mesmo e da equipe. Nas Olimpíadas e nas Para-Olimpíadas de Atenas, os esportes compartilhados, que facultam a necessária e salutar dependência uns dos outros, mostraram, entre os brasileiros, esse sentimento de integração, que fez nossos jovens, envolvidos na bandeira do Brasil, abraçarem-se, chorarem juntos de emoção, de profundo respeito e amor à união, ao esforço conjunto. Destaque para o gesto de um deles, ao doar, mesmo que simbolicamente, a sua medalha de ouro ao atleta constrangido, obscuramente e pela força, a abandonar o primeiro lugar do pódium da Maratona grega. Houve, naquele instante, embora curto, um grande gesto de sublimação - e o respeito ao esportista transformou-se num imenso gesto de Amizade. Eternizou-se em ambos, em seus próprios corações, e nos daqueles que os assistiam, muito mais do que o ouro perecível da medalha, o valor da afeição, do respeito ao talento do outro. Analogamente, palavras de um jogador de volei: “quando não estava na equipe jogando, estava por perto, ajudando, colaborando com todos, porque quando um ganha, ganhamos em conjunto, mas quando um só perde, toda a equipe perde também”.

Vivemos hoje, momentos de intensa dramaticidade; ao lado de gestos como este, de jovens que mostram seus valores, o amor à causa que abraçam - o esporte, às suas famílias, à sua equipe, ao seu país, vemos também famílias consumidas pela dor e pelas perdas, jovens ainda distantes de oportunidades de estudo, trabalho e lazer, distantes da espiritualidade sadia. Assistimos - e participamos - da Grande Transição, que manifesta no mundo toda a sua força, todo o seu empenho em demonstrar aos seres humanos que o Verdadeiro Caminho continua ali, à nossa espera, pleno de Vida e Verdade. Muitos já fizeram sua escolha, fruto de uma época que estertora, que envilece os incautos, que solapa as boas intenções, que ironiza a bondade, traçando trajetórias de lágrimas e aflições no planeta de expiações e provas. Geração dessa Grande Transição, somos espectadores da dor alheia, mas, vez por outra ela se aproxima, mais de perto, de cada um de nós, como um convite a que não nos tornemos insensíveis, que a olhemos de frente, como um convite à reflexão. Reflexão proporcionada por Jesus, quando convidou-nos a repartir, a participar, a distribuir, a sentirmos compaixão, a exercermos o perdão, a indulgência, a paciência, a tolerância, o entendimento. A sermos amigos uns dos outros.

E não foi diferente, quando os corações que trabalham junto à diplomacia mundial, na virada do milênio, instituíram, através da UNESCO, a Década da Cultura de Paz cujos princípios norteiam-se por:

* Respeitar a Vida. Respeitar a vida e a dignidade de cada ser humano sem discriminação nem preconceito.

* Rejeitar a Violência. Praticar a não-violência ativa, rejeitando a violência em todas as suas formas: física, sexual, psicológica, econômica e social, em particular contra os desprovidos e os mais vulneráveis, como as crianças e os adolescentes.

* Ser Generoso. Compartilhar o tempo e os recursos materiais no cultivo da generosidade e pôr um fim à exclusão, à injustiça e à opressão política e econômica.

* Ouvir para Compreender. Defender a liberdade de expressão e a diversidade cultural, privilegiando sempre o diálogo sem ceder ao fanatismo, à difamação e à rejeição.

* Preservar o Planeta. Promover o consumo responsável, e um modo de desenvolvimento que respeitem todas as formas de vida e preservem o equilíbrio dos recursos naturais do planeta.


* Redescobrir a Solidariedade. Contribuir para o desenvolvimento das comunidades, com plena participação das mulheres e o respeito aos princípios democráticos, de modo a criar novas formas de solidariedade.


Parafraseando Gandhi, “acredito na essencial unidade do ser humano, e portanto na unidade de tudo o que vive. Desse modo, se um homem progredir espiritualmente, o mundo inteiro progride com ele, e se um homem cai, o mundo inteiro cai em igual medida”, vemos que, não obstante as lutas fratricidas e a violência brutal corrente no mundo, já previstos desde Bezerra de Menezes na Câmara de Deputados do Rio de Janeiro em fins do século 19, com relação aos morros cariocas, de que poderiam no futuro abrigar a intolerância, a agressão e o desvalimento, o abandono social, até nos dias atuais com o pensador Hans Magnus Enzensberger, em sua primorosa e crua análise das relações político-sociais e exclusão, GUERRA CIVIL quando igualmente localiza a essência do terrorismo na ausência de interesse real das criaturas humanas, umas pelas outras. Poderíamos complementar, na ausência de afeto. Mas dizíamos, não obstante tudo isso, vemos sinais contundentes de um desejo profundo pela Harmonia nas relações humanas, o que poderia levar a um sentimento mais elaborado do que a própria tolerância, e ensinada há 2.000 anos com Jesus: amar ao próximo como a si mesmo. Temos dado voltas e voltas, sem compreender a profundidade destas palavras - e chegamos aqui, carecentes de luz e de confiança uns nos outros. E de tal forma isto criou raízes, que no próprio Movimento Espírita vemos dissensões, lutas por cargos e destaques nas entidades, sentimentos de desvalia e atitudes antiéticas.

Em diferentes épocas e em diversos pontos do globo, grandes educadores, Amigos da Humanidade aqui aportam. As suas missões diferentes concorrem para um fim comum, e provam que em certas épocas uma mesma corrente espiritual atravessa o planeta, como a lembrar-nos, através de suas lições, que o nosso dever é o de compreender, aceitar, ajudar e não a pensar e agir de forma excludente.

Há 200 anos um dos Amigos da Humanidade esteve entre nós - professor Rivail, Allan Kardec, com seu profundo sentimento fraterno aos homens e mulheres da Terra, trouxe-nos o seu exemplo de trabalho, de perseverança, de comportamento diante de uma Causa, legando-a às gerações do futuro. E deu-nos uma senha, uma password para que nos reconhecêssemos instantaneamente: a prática da Caridade, o exercício da Amizade Fraterna, que não conhece tempo ou lugar, credo ou religião, raça ou costumes. E pregou o Caráter Universal dos Princípios do Espiritismo, que vimos hoje nortear o pensamento de milhares de pessoas, desde os mais humildes, em terras distantes, até as ONGs de preservação da Vida, aos Pacificadores como o nosso Sergio Vieira de Mello, as equipes que elaboram as normas de bem viver da Humanidade na ONU e outros órgãos de caráter mundial, seja no ramo da ciência, da filosofia ou da moral. E da ética.

Lembramo-nos de Kardec, de Denis, bem como Francisco, o Amigo de Assis, que chamou a si próprio de Irmão da Natureza, divinizando-a, sancionando e enaltecendo as lições de Jesus em seu grande coração, tornando-se Instrumento da Paz.

Belíssima a passagem em O Livro dos Espíritos sobre a missão dos anjos guardiões: “há uma doutrina que deveria converter os mais incrédulos, por seu encanto e doçura, a dos anjos da guarda. Pensar que tendes sempre a vosso lado seres que vos são superiores, que estão sempre ali para vos aconselhar, vos sustentar, vos ajudar a escalar a montanha escarpada do bem, que são AMIGOS (o grifo é nosso) mais firmes e mais devotados que as mais íntimas ligações que se possam contrair na Terra, não é essa uma idéia bastante consoladora?” E, como num convite à ágape (em grego, amor desinteressado ao próximo) e ao exercício da philia (grego, sinônimo de amor fraterno, amizade), dizem São Luís e Santo Agostinho: “Não temais fatigar-nos com as vossas perguntas, permanecei, pelo contrário, sempre em contato conosco; sereis então mais fortes e mais felizes”.

E como seria ela, afinal? Poderíamos dizer que a amizade não é projeção do próprio ego, nem paixão, ou sequer sentimento de posse. A amizade pode começar de um sorriso, de um aperto de mãos, de uma palavra auspiciosa, de um simples gesto que exprima simpatia ou empatia. O amigo ( ou a amiga) é um ser especial. Não vê nossas carências, e se as vê, credita-as a um pequeno instante de esquecimento, a uma falha momentânea, embora o verdadeiro amigo seja aquele que nos aponta defeitos, mas também nos indica as virtudes. Tem a coragem de ver nossas qualidades e potencialidades e nos impulsiona para frente, como a dizer, é por esse caminho, vá em frente que eu estou com você!

Ter (ou ser) um amigo (ou amiga), é possuir (ou dar) um tesouro de valor incalculável, não mensurável, no tempo ou no espaço. Pois começa de um ponto e vira um tanto, um quanto, cada vez mais a cada sorriso, a cada incentivo, a cada momento, a cada gesto, a cada olhar.

Ter (ou ser) um amigo (ou amiga), é renovar a alegria, a cada dia, a cada estar. É dividir sentimentos de paz, de igualdade, de alegria, de bem-estar, de tristezas também.

Ter um amigo (ou amiga), é não ser igual, é ter o compromisso de reto proceder, não porque se deseja servir de exemplo, mas porque o coração que bate a dois, na amizade, torna-se um só.

Sentir amizade é ver no outro (ou na outra), o irmão (ou irmã) muito mais que carnal, espiritual. É a união de espírito a espírito, é não ter que se desculpar (porque ele - ou ela - sabe por antecipação que não se fez de propósito, que não foi intencional). É também a comunicação de espírito a espírito, de sorriso a sorriso, de olhar a olhar, de sofrer a sofrer, de chorar a lágrima sentida, a dois.

Principalmente, quando se perde um amigo - ou amiga. A vida é assim. Época difícil, em que muitos perdem seus amigos. Pena, pois às vezes não há nem tempo para despedidas. Mas fica a lembrança, o sorriso, o incentivo, o compartilhar. Nestas horas não somos adultos, ou crianças, somos apenas amigos. E o amigo - ou amiga sai do âmbito da concretude e dos sentidos conforme Parmênides, ou seja, da nossa visão, do aperto de mãos, da temporalidade, para o âmbito da infinitude, do sentimento mais puro, aquele que a vista não alcança. E vai viver no Mundo das Idéias, de Platão, na Shangri-lá de James Hilton. E deixa a distância. O eco da sua voz no espaço, o sorriso solto no tempo, dele (dela), que de amigo virou ausente.

A todos vocês, amigos e amigas do lado de lá, com ou sem laços de parentesco, que nos antecederam - sem sequer, às vezes, de ter tempo de dizer até breve! Nosso afeto, nosso carinho, nossa alegria, o desejo de progresso, de realizações, de encontros e re-encontros.

Mas, dê-nos licença - neste instante, um pequeno staccato, para libertar uma, duas lágrimas - nada demais, apenas, a saudade de quem fica - não a lastimar, mas de ter esperança - pois a lágrima é o sentimento que se materializa, é o cristal que, translúcido, contém, milagrosamente, todos os afetos - os que se foram e os que ainda cá estão - em seu interior. É o diamante, jóia brilhante, pedra preciosa extraída do coração - do mesmo coração que abriga todos aqueles a quem um dia pudemos chamar de AMIGOS !

(Aos amigos de ontem, de hoje e de sempre !)

Bibliografia: Emmanuel/Chico Xavier- Caminho, Verdade e Vida, item 86; Kardec, Allan - O Livro dos Espíritos, item VI, Cap. IX do Livro 2o.; Revista Thot no.79 publicação da Associação Palas Athena; Voltaire, F.M.A. - Dictionnaire Philosophique.

EFE Filosofia Espírita

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